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Sobre a arte do esmero e dos elogios ao primor

COLUNA MODA E EDUCAÇÃO, por Dario Brito

Tenho uma aluna que sempre capricha nos seus trabalhos da faculdade. Não importa a natureza do que lhe for solicitado, ela sempre faz mais do que esperamos (escrevo no plural, pois já partilhei essa ideia com alguns colegas). E quando digo mais, me refiro a um "mais" com impecabilidade, cheio de refinamento. Por mais aparentemente corriqueiras ou simples, as atividades acadêmicas (elas dificilmente são isso de verdade...) realizadas por essa estudante sempre provocam a admiração por parte de alguns colegas e uma inveja indisfarçável e quase teatral pelos demais. No meu canto, eu só sou capaz de sorrir discretamente diante dessas reações.

O fato é que essa minha aluna sempre dá um jeito de conferir refinamento ao seu material: seus croquis nunca são simples croquis, seus projetos são uma verdadeira aula com relação ao primor e seus rascunhos nem sequer merecem ser chamados assim, pois muito são melhores que alguns trabalhos finais que existem por aí. Não sou professor de desenho, mas acredito que ela deva orgulhar quem lhe ensinou os primeiros traços.

Fico sempre olhando e, de certo modo, curioso a respeito do que ela vai me entregar adiante. Sou um fã não-confesso dos seus trabalhos, até porque a posição de professor infelizmente não me permite o contrário. Mas a verdade é que muitos desses trabalhos são até inspiradores.

O que quero dizer com toda essa história é muito simples: esmero não é pra qualquer um. E por mais que isso não seja garantia de um futuro brilhante, diz muito sobre nós e nossa capacidade de entrega. Trocando em miúdos, é tudo assim: pode ser que essa aluna nunca seja uma profissional de destaque... pode ser que ela não se forme entre os melhores da turma... pode ser que ela não consiga chegar ao mercado de trabalho... pode ser, pode ser... na verdade, pode ser tudo (afinal, ultimamente, venho me convencendo de que "certeza" não passa apenas de uma palavra, um conceito distante).

Mas eu digo o que não pode ser: ela não pode ser taxada de que não dá o máximo de si naquilo que faz. Fico imaginando como seria se, não todos, mas pelo menos a maioria dos alunos dirigisse suas forças aos projetos que realizam, se fossem capazes de se entregar, se voltar com vontade para aquilo que estão fazendo. Acho que aí, sim, as universidades seriam aquele lugar onde sempre surgem coisas fantásticas. Hoje surgem, mas nem todas são assim.

Não é surpresa para ninguém que o fator tempo, de maneira consciente ou inconsciente, contribui decisivamente para isso. Já reparou que cada vez mais os alunos (não só eles, mas as pessoas em geral...) dedicam menos tempo às coisas? Tempo é algo muito precioso nos dias atuais e passar grande parte dele em algo que você acha que pode resolver abreviando esse bem é a escolha que parece a mais acertada. Mas nem sempre é.

Desculpas, ou argumentos (leiam como bem entenderem), brotam constantemente: “não tive tempo, juro...”; “foi uma correria tão grande...”; “eu virei a noite terminando isso...”. E todo esse discurso acaba fazendo com que paremos para refletir se de outro modo não é possível. Quando vejo os trabalhos dessa minha aluna, percebo o quanto isso é possível, sim.

Não vou ficar escrevendo aqui a respeito de prioridades ou de como gerenciar estrategicamente o tempo porque acho que isso não me compete. Não faço isso porque tenho duas certezas: a primeira é que quando entramos na vida adulta as coisas ficam tão claras frente a essa “falência de organização pessoal” que, se não pararmos para fazer algo nós mesmos quando vemos o caos diante de nossos olhos, talvez tenhamos que rever conceitos como preservação e amor próprio... é como se víssemos um barco afundando (nosso barco, aliás...) e não fizéssemos absolutamente nada. A segunda certeza é mais dura, pelo menos no meu entender: com essa escravidão a que somos submetidos diante do relógio, deixamos de ser cuidadosos, parecemos relaxados e estamos bem distantes da dedicação. E para mim isso é triste.

Ao contrário, o capricho, cada vez mais em extinção num mundo de corre-corre, é algo digno de admiração. O cuidado para tentar produzir alguma coisa num nível de qualidade extrema é louvável. A faculdade está cheia dessas oportunidades de caprichar: portfólios, scrapbooks, cadernos de criação, recortes, briefings visuais (só para ficar nos mais visíveis). Cursos de design de moda são um lugar onde surgem vários elementos que precisam de esmero. Basta querer dar o que eles necessitam. Sendo assim, o desafio a partir de agora é o de sempre tentar aplicar dedicação e refinamento ao fazer tudo: das coisas mais complexas até redigir um simples bilhete que seja. Escrevo isso porque acho que a cada dia que passa o mundo e as pessoas que vivem nele precisam de muito, mas muito capricho mesmo.


Dario Brito é jornalista e professor dos cursos de Design de Moda, Jornalismo e Jogos Digitais nas instituições Faculdade Senac, Faculdade Maurício de Nassau e Universidade Católica de Pernambuco.

 

 

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