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Entre o céu e o inferno dos estágios, deve haver (na verdade, sempre há...) algo de bom

COLUNA MODA E EDUCAÇÃO, por Dario Brito

Reações conflitantes: é triste e ao mesmo tempo um pouco engraçado perceber a cultura que temos em relação ao estágio, no nosso País. Essa prática que, em tese, ajuda a complementar no dia a dia o que a teoria e os "ensaios" da faculdade proporcionam, muitas vezes não passa de piada no Brasil e acaba se transformando numa caricatura de si mesma, já que muito disso pode ser (e na verdade é...) baseado em experiências reais. A figura do estagiário que serve de burro de carga, que ocupa o lugar do animal adestrado ou que é um subcidadão instalado na base da cadeia alimentar profissional dá pano pra muita manga ao imaginário coletivo.

Na área de design de moda não é diferente. É justamente no momento do estágio que alguns mitos caem, que o glamour desaparece, que problemas reais pedem soluções ágeis e milagrosas e que a dura realidade se revela cruel. Mas é também nesse período que o aluno e sua vontade romanticamente apaixonada de trabalhar nessa área são colocados em teste. E se a experiência valer a pena e o resultado for positivo, ela se transforma – quase na totalidade das vezes – no início de uma ótima carreira.

Estágios bem aproveitados e realmente sérios (encarados assim por ambas as partes, aluno e empresa) operam verdadeiras "revoluções" no desenvolvimento profissional dos estudantes. Além de compreenderem melhor alguns conceitos estudados em sala de aula, os alunos mais espertos utilizam essa oportunidade para ampliar sua rede de contatos (elemento que é mais do que importante nesse setor) e também para perceber o quanto a área de moda é plural e abriga nela diversos caminhos a seguir.

Os menos espertos, no entanto, acabam se tornando experts em tirar xerox, fazer café, comprar lanches e pegar os resultados de jogos na lotérica. Quase sempre esses são aqueles que abandonam uma coisa pela outra, ou seja, a partir do momento que conseguem o estágio, passam a olhar para a faculdade como uma instituição sem sentido e, mesmo sem perceber, acabam se tornando capachos nas empresas e exercendo pouco a pouco funções para as quais não estava se preparando (ou que nada tem a ver com o curso).

Isso porque, não raro, uma empresa e seus profissionais que abrem qualquer oportunidade aos alunos às vezes acham que estão escancarando as portas do mundo da moda para os novos estagiários (e algumas vezes estão abrindo mesmo, nem que seja uma frestinha...). Contudo esperam, em troca da nova escravidão, uma gratidão ferrenha e uma empolgação sobrenatural, como se a impressionante habilidade de imprimir 50 folhas em três minutos fosse o mesmo que desenhar a coleção inteira da Chanel para a Semana de Moda de Paris.

E, nessa pisada, pouco a pouco, os alunos vão se afastando do ambiente universitário. Um dos erros mais comuns ao abraçar um estágio é justamente esse: procurar se desvincular totalmente da faculdade, por achar que o simples fato de estar inserido num ambiente profissional vai lhe colocar definitivamente numa ótima posição no setor (mesmo que subutilizado pelos chefes sem ter a noção que sua condição de contratação também significa uma mão-de-obra pelo menos duas vezes mais barata que a usual).

Ser incumbido de realizar atividades simples e corriqueiras no inicio de qualquer carreira é comum, mas o importante nessa experiência é notar uma evolução da complexidade das tarefas e obrigações e uma relação direta com o que aprende no curso. Por isso, o conselho é ficar atento a qualquer situação contrária, por mais sutil que seja, e que lentamente descambe para fazer o estagiário de capacho de luxo. Dar um fim na experiência do tipo “roubada” e aproveitar o pouco tempo vinculado ao curso para buscar outra oportunidade numa empresa mais séria e comprometida, nesses casos, é mais do que indicado. Mas o triste é constatar que nem sempre os alunos percebem isso.

Tanto é que um dos momentos mais importantes dessa experiência toda é, sem dúvida, o mais negligenciado: a entrega do relatório de estágio (quando obrigatório) e a análise, em parceria com o professor, sobre os procedimentos vividos. É nesse momento (que pode parecer bobo, burocrático ou sem sentido) que às vezes está escondida a diferença entre aquele que vai se tornar mais a frente um profissional crítico e consciente das nuances que envolvem a sua profissão e aquele que se transformará num robô cuja única capacidade será a de balançar a cabeça positivamente quando algo lhe for delegado sem ao menos saber o que está fazendo.

 

Dario Brito é jornalista e professor dos cursos de Design de Moda, Jornalismo e Jogos Digitais nas instituições Faculdade Senac, Faculdade Maurício de Nassau e Universidade Católica de Pernambuco.

 

 

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