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COLUNA MODA E EDUCAÇÃO, por Dario Brito
Marcelo é um dos estudantes mais empolgados e pró-ativos do curso de Engenharia de Alimentos. Patrícia, que só vive atarefada "surfando" entre o trabalho e os estudos, está no último ano da Faculdade de Design de Moda. Marcelo desenvolve atualmente, dentro de um projeto de incentivo à inovação na sua faculdade, um trabalho para produzir gorduras com baixo teor de saturados e, assim, contribuir de alguma forma com uma melhor qualidade de vida para as pessoas a partir da alimentação. Patrícia só pensa em finalizar seu curso e, ao mesmo tempo, olha para o que produziu durante quase três anos pensando que poderia ter deixado alguma contribuição do ponto de vista da inovação para a sociedade, mas vê que sua situação não é isolada: ao olhar em seu redor, percebe que seus amigos, conhecidos, alunos de outras turmas e de outras instituições no mesmo curso não tiveram espaço, incentivo ou oportunidade para produzir algo de novo na área de moda.
Este cenário descrito acima pode ser uma das comparações mais simplistas e até equivocadas do ponto de vista da inovação nas instituições de ensino superior, mas ao mesmo tempo ilustra uma dura realidade para os cursos de Design de Moda: a produção de conhecimento, na grande maioria das vezes (e que esse termo seja grifado pelos leitores...), é insuficiente ou mesmo nula. E aí nos deparamos com uma encruzilhada cruel diante de nós: as faculdades e universidades, que deveriam ser o local para desenvolver o pensamento, com tempo e material humano disponíveis para pesquisa e inovação, acabam se convertendo num espaço onde os conhecimentos são repetidos e repetidos ininterruptamente sem que nada de novo seja criado ou mesmo criado e sugerido para além dos muros da faculdade (empresas, comunidade de entorno, etc.).
É fácil estabelecermos uma linha de raciocínio que comporte as inovações nos campos da física, da química, da biologia, da farmacêutica ou da medicina surgindo das universidades, ou que criemos uma imagem mental de alunos e professores de engenharias criando novos materiais e soluções para construção ou de ciências da computação desenvolvendo protótipos de hardwares mais potentes ou softwares inovadores. Sim, basta ligarmos a TV e assistirmos nos telejornais notícias que mostram exemplos e mais exemplos bem sucedidos em todos esses setores. Mas por que será que nunca tivemos a chance de contemplar uma notícia a respeito de uma ideia inovadora partindo dos cursos de Design de Moda?
Da mesma maneira, não é difícil conceber que a grande maioria dos alunos que estão matriculados hoje num curso de Design de Moda, antes de fazê-lo, quando apenas sonhavam com a possibilidade de entrar numa instituição de ensino e aprender tudo o que estivesse ao seu alcance nessa área, também já se imaginaram desenvolvendo algo novo, tendo seu nome escrito entre aqueles que fizeram história no seu setor, sendo reconhecido pelo seus pares e pela sociedade em geral. Certamente muitos já rabiscaram ao longo da vida alguma ideia mirabolante, já pensaram em algum produto, estilo, modelagem revolucionária, mas eis que alguma coisa aconteceu entre esse sonho traçado antes de entrar na faculdade e o atual momento às vésperas de concluir o curso.
O que aconteceu foi justamente a faculdade. Nos moldes em que ela está configurada.
Entenda, caro leitor, que não estou aqui utilizando este espaço para apedrejar os cursos superiores de Design de Moda, de maneira alguma. Faço parte deles e acredito na sua existência. Mas ao mesmo tempo enxergo que há um espaço vago a ser preenchido nas matrizes curriculares ou no dia a dia das instituições. Algo que incentive esses alunos a resgatar o desejo de inovar, a vontade de desenvolver, de criar, de provocar, de contribuir com algo novo. Isso porque não é novidade nenhuma o fato de que a humanidade só evolui com esse tipo de provocação. É só experimentando, tentando, sugerindo novas técnicas, novos materiais, interfaces e funcionalidades que andamos para frente.
Outro dia li uma notícia a respeito de estudantes de um colégio de Ensino Médio no Piauí que criaram, dentro da semana de empreendedorismo da instituição, uma marca ecológica que desenvolvia camisetas com material reciclado (50% pet) e algodão (50%), com estampas exclusivas e faziam desfiles que movimentavam toda a escola. Esses mesmos alunos (um grupo de cinco ou seis, se não me engano), neste ou no próximo ano, já terão sido aprovados em algum vestibular e estarão dentro de alguma instituição de ensino superior. A dúvida é: será que esse espírito de inovação também os acompanhará?
Como se não bastasse essa inquietação, ainda temos que pensar em outro fator sem aparente feedback: as empresas que fazem parte da grande cadeia produtiva que envolve a moda e todo o seu sistema estão constantemente ávidas por novas soluções, por ideias revolucionárias, por novos ares. E, infelizmente, o que vemos nas faculdades e universidades é que a grande parte dos corpos docente e discente não abraçou a inovação como uma ferramenta importante da prática universitária, que deve estar no núcleo da aquisição e produção do conhecimento. Ela deve ser questionadora, desafiadora e inquietante, já que a sua própria natureza flui por este caminho e rompe com o sistema tradicional de ensino e pesquisa. Empresas poderiam (assim como o são nas outras áreas) ser as grandes parceiras dessa empreitada.
O que precisamos, então, é de algo muito simples: descongelar alguns dos cursos de Design de Moda ao redor desse país, despertando alguns de seus atores (alunos e professores), que ainda não estão atentos para essa "nova velha realidade". Precisamos entender também que o papel do ensino superior no nosso país é de extrema importância, pois ele está ligado diretamente à melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro e a delicadeza e a responsabilidade dessa relação são inquestionáveis. Por fim, fica aqui o convite para pensarmos e mudarmos esse cenário atual. Para fazermos de Patrícia (aquela estudante que apresentei no início do texto) uma aluna que saiba da importância do seu papel na sociedade, de estudante de ensino superior que pode produzir algo de relevante, e que como colega possa dialogar com Marcelo de igual para igual nos corredores da sua Faculdade.
Dario Brito é jornalista e professor dos cursos de Design de Moda, Jornalismo e Jogos Digitais nas instituições Faculdade Senac, Faculdade Maurício de Nassau e Universidade Católica de Pernambuco.
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